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Cornélio Zampier Teixeira
Aquele que lê maus livros não leva vantagem sobre aquele que não lê livro nenhum (Mark Twain)
Textos


Esta é a história incompleta de três tragédias, todas começando com a letra B. A primeira ocorreu em 21 de janeiro de 2019; todos os anos ela mata de vergonha uns poucos brasileiros – a maioria gosta! Se você chutou Big Brother Brasil, bingo!
Quatro dias depois veio a segunda tragédia e é desta que o artigo se ocupará. Como se fossem um tenebroso agosto os meses de janeiro e fevereiro ainda trariam outro evento trágico. Era o dia 11 de fevereiro quando nos surpreendeu a fatalidade com a morte estúpida de Ricardo Boechat, o jornalista mais sem partido que conheci.
A consequência do BBB nas mentes brasileiras poderia ser tipificada como crime contra a pessoa humana se assim estivesse escrito nas leis. As consequências da ruptura da barragem de Brumadinho ainda não foram adequadamente mensuradas e não há um laudo técnico criticamente aceitável para que as autoridades tomem as ações esperadas. E não se espera um substituto possível para Boechat, nem mesmo William Waak.
Curioso é este país que, numa só tacada, ri de si mesmo com o BBB e chora todas as dores possíveis com a morte de um jornalista e a de pessoas, animais e corpos aquáticos que, descuidados, estavam na rota de uma avalanche de rejeitos.
Mas, o que motiva este artigo é uma matéria de bela feitura e grande repercussão apresentada pelo The New York Times. Ela está assinada por sete jornalistas, incluindo dois brasileiros. Dirão alguns: a discussão de problemas de áreas técnicas não é da alçada jornalística. Ok, ok, e, entretanto nada impede que eles coloquem as mãos na ferida – e assim o fizeram.
Tentando extrair alguma verdade assisti várias vezes o vídeo que mostra a ruptura iniciando. Tudo tão confuso e impreciso à distância, mesmo com olhar clínico aguçado. Se algum julgamento puder ser antecipado, eu diria aos engenheiros do ramo: é quase certo que a liquefação estática é a causa da ruptura, potencializada por um ou mais gatilhos que ainda não se tem certeza de quais são.
Os leigos gostariam de saber o que é isso, pois parece improvável que uma barragem que não recebia rejeitos por via úmida há vários anos tenha lançado milhões de metros cúbicos de lama fluida descendo pelo vale com a velocidade de um Ford 1929. Fica ainda mais difícil de entender se eu lhes disser que, não faz muito tempo, se acreditava que a única forma possível de ocorrer a liquefação de materiais arenosos era através de um carregamento dinâmico. Ou seja: um tremor de terra produzido por explosivos ou terremotos. Mas já estamos seguros que não e a liquefação estática tem sido a tônica da maioria dos eventos trágicos em barragens de rejeito pelo mundo afora.
Em Mariana, um problema que estudei bem, foi um mecanismo complexo chamado de extrusão de lamas dentro da camada de rejeito arenoso. Ele começou com o aumento rápido da carga estática devido ao rápido alteamento imposto à barragem pela ganância de aumentar o ritmo da produção. Barragem alteada para montante, diga-se de passagem, apoiada sobre rejeitos fofos e saturados que se integrariam ao próprio corpo da barragem.
Havia uma série de incidentes no histórico operacional da barragem de Fundão em Mariana, cujos segredos eram mantidos na intimidade dos arquivos quase secretos da empresa. O fator de segurança foi diminuindo com o tempo – em outras palavras, a barragem foi-se tornando gradualmente menos resistente enquanto os esforços sobre ela aumentavam. O tiro de misericórdia numa coisa que já estava à beira da urna funerária foram três pequenos abalos sísmicos. Por si só insuficientes para romper a barragem, mas suficientes para desestruturar um maciço que já estava no limiar da segurança.
Mas, e em Brumadinho?
Tem-se que levar em conta que a liquefação estática só ocorre mediante a existência de alguns mecanismos previamente existentes: 1) presença de rejeitos fofos e contrativos; 2) rejeitos saturados; e 3) ruptura rápida. Para o entendimento mais trivial essas informações me parecem suficientes. Mesmo porque explicar o que é rejeito contrativo e ruptura rápida por cisalhamento não drenado precisa de um extenso curso.
Agora se sabe que a barragem estava doente. A patologia tinha sido impressa em digitais por engenheiros que monitoravam seu comportamento. Ninguém se arriscava a dizer que era provável a sua ruptura, mas este cenário não era desdenhado. Havia previsão de mortes e custos financeiros onerando a tragédia. E por que nada foi feito? Simplesmente porque barragens de rejeito, ao contrário das barragens para geração de energia elétrica, não são encaradas como produtos. São parte de uma cadeia de aborrecimentos que precisam ser empurrados com a barriga para não aborrecer os acionistas e o CEO.
De outubro a dezembro de 2018 choveu muito na região. Não se sabe se o sistema de drenagem interna da barragem funcionava bem. Se não, boa parte dos volumes precipitados se armazenaram nos rejeitos. O que antes estava ressecado saturou. A superfície freática se elevou no interior da barragem. Isso foi medido? Havia instrumentos bem localizados, em bom estado de funcionamento, para as leituras das pressões da água no interior da barragem? Se havia leituras dos piezômetros, elas foram bem interpretadas? São perguntas que só um prolongado (e demorado) laudo técnico abordado de forma multidisciplinar poderá esclarecer.
Em outras palavras: se o sistema de drenagem interna da barragem tivesse funcionado eficazmente, talvez se tivesse outro cenário de segurança. Ora, a palavra “segurança” não saiu aí por acaso. Tecnicamente, segurança se contrapõe a risco. E risco precisa ser administrado pela Gestão de Riscos, ou melhor, por um Sistema Integrado de Gestão de Riscos, que inclui, entre outras coisas, Gestão de Riscos Operacionais e Registro de Riscos (Banco de Dados). Um dos componentes mais importantes do Registro de Riscos é exatamente a probabilidade de ocorrência do risco.
Há anos venho tentando convencer às pessoas que a análise de estabilidade é uma pequena farsa. Em “A Tragédia de Mariana – Lições extraídas da barragem de Fundão” escrevi o seguinte: “Em barragens um fator de segurança considerado adequado pode ser destruído localmente em questão de minutos por más condições de drenagem interna ou má compactação de materiais, isso sem considerar a possibilidade de ocorrência de eventos climáticos extremos [...] Uma das maiores fraudes da engenharia é a análise determinística de estabilidade de taludes, devido à confiança cega nos resultados, passada por convencimento pelo projetista e aceita ingenuamente pelos analistas de projeto. Isso serve para confundir os leigos e dar oportunidade aos mais espertos de atribuir a ruptura de uma barragem ao mero acaso ou à má sorte mediante o argumento de que o fator de segurança era adequado.”
Faço essas ressalvas porque cada operador de barragens de rejeito diria o que a Vale reproduziu em um comunicado: “A represa tinha um fator de segurança de acordo com as melhores práticas do mundo [...] A estrutura foi inspecionada regularmente e os relatórios atestavam a segurança física e hidráulica da barragem".
Não há um único especialista sério em barragens no Brasil que tenha se surpreendido com essa nova tragédia. Difícil seria dizer que Brumadinho viria tão cedo logo após a contundente tragédia de Mariana. Agora cabe perguntar: qual será a próxima e quando? Pois, somente nas proximidades de Belo Horizonte há quase três dezenas de barragens de rejeito construídas pelo método de montante e mais de 40% delas estão a montante de áreas habitadas. E só de pensar nisso as autoridades se encontram em estado de calamidade, expulsando moradores e desviando o tráfego de rodovias.
Cinicamente, os responsáveis pela desídia alegam que a barragem rompida tinha licença ambiental e estabilidade garantida. Curiosamente, essas são duas características sempre presentes nas barragens que rompem. Desde a década de 1990 firmei a convicção de que, por causa da grande variabilidade espacial dos materiais geotécnicos e a consequente dispersão nos valores de suas propriedades é inviável a adoção de parâmetros médios para os estudos de estabilidade.
No projeto básico de qualquer barragem é feita uma análise de estabilidade através da qual se calcula um indicador determinístico de segurança conhecido como “Fator de Segurança”. Muitas vezes a “seção crítica” analisada é tão extensa que nem por graça divina as propriedades geotécnicas e hidráulicas permanecerão constantes ao longo dela, mas, mesmo assim, é esta a hipótese que geralmente se adota.
Li recentemente um pequeno artigo onde são apresentados cem fatores de risco e suas respectivas frequências. Elas variam desde “Inspeções e Controles Inadequados” (93%) até “Fraudes” (0%). Embora com a ressalva de que a listagem contempla apenas as Atividades Industriais e não pode ser generalizada para outros tipos de empreendimentos chama a atenção os dez primeiros da lista (frequência igual ou maior que 70%), todos identificados com os mesmos fatores de risco que são negligenciados em barragens de rejeito.
Inspeções ou controles inadequados. Alterações nos requisitos do cliente. Tarefas não previstas. Requisitos de produção conflitantes. Análises de risco inadequadas. Mudanças de escopo. Objetivos mal definidos. Tarefas concluídas tardiamente. Problemas com critério de aceitação. Parceiros pouco comprometidos.
O The New York Times ousa afirmar, como nenhum jornalista brasileiro fez até então, que na tragédia de Brumadinho todos os elementos para a catástrofe estavam presentes: barragem construída a baixo custo – grande população localizada a montante e a pequena distância – negligência em relação às advertências quanto a problemas estruturais – instrumentos de monitoramento defeituosos e inoperantes. E finaliza a questão de modo enfático ao afirmar que está claro “que nem o setor de mineração nem os reguladores têm a situação sob controle”.
Jogar toda a culpa sobre a Vale neste momento é crime de prevaricação. Ela é a maior, não única culpada pela tragédia. A lista é imensa e começa pelas mais altas autoridades da República representadas pelos responsáveis por fazer e por cumprir leis. Passa pelos operadores da barragem que davam manutenção e analisavam relatórios de inspeção de segurança. E termina com os inúmeros engenheiros especialistas que só se pronunciam em momentos assim. Dentre esses eu me incluo.
A minha vasta experiência em Engenharia Civil me dá autoridade para afirmar que não há obras traiçoeiras. Até mesmo os sistemas elásticos – estruturas de aço e concreto armado – se manifestam previamente. Materiais que se plastificam como solos se deformam prolongadamente, visibilizam trincas, se abrem para a passagem anormal de água, etc. Esta é a responsabilidade de quem se encarrega de acompanhá-las.
Projetar uma barragem de rejeitos pelo método de montante é uma temeridade, embora engenheiros renomados não hesitem em fazê-lo confiando que suas premissas de projeto serão literalmente cumpridas: distância mínima da praia de rejeitos e dreno de fundo. Dois fundamentos cruciais frequentemente desprezados. Em Mariana foi assim: o dreno de fundo deixou de funcionar logo no início da operação e o conceito de pilha drenada foi jogado no lixo. Brumadinho teria repetido o erro? Ou vice-versa? Num e noutro caso – a se confirmar esta hipótese – um irresponsável recuo do eixo da barragem para resolver as pendências de drenagem interna.
Não está aqui em julgamento nenhuma pessoa ou instituição, posto que prejulgar sem conhecimento das causas é leviano. Mas o script parece absolutamente normal. A impressão é a de que todos rezam pela mesma cartilha.
O artigo do The New York Times é inconclusivo quanto à liquefação, deixando a dúvida se ela foi causa ou efeito do colapso da barragem. É quase certo que seja a causa, eis minha opinião preliminar. Ainda que seja em uma pequena seção inicial, através da qual a brecha se propagou rapidamente pelo afluxo dos rejeitos.
O que é interessante neste artigo do NYT é a declaração de especialistas atestando que é possível construir barragens de rejeito pelo método de alteamento a montante com segurança. E ilustrando o fato é citado nominalmente o Sr. W. Allen Marr, presidente-executivo de uma empresa sediada em Boston, membro da academia nacional nos EUA: “geralmente é uma combinação de várias coisas que deveriam ter sido feitas, mas não foram feitas” – disse-o como justificativa de que não vê nada de errado no método.
Uma dissertação de mestrado, abordando especificamente o potencial de liquefação da barragem que rompeu foi defendida em 2010. O autor, engenheiro da Vale, escreveu nas conclusões: “Os rejeitos dispostos na Barragem I da Mina de Córrego do Feijão constituem materiais que tendem a exibir comportamento contrátil sob cisalhamento e, assim, susceptibilidade potencial a mecanismos de liquefação”.
Não se pode ignorar que a barragem poderia ser classificada como vulnerável. Depois disso a TÜV SÜD, contratada em 2018 para inspeção da barragem, mesmo encontrando fatores de segurança não críticos manifestou alguma preocupação com sua segurança. Foram constatados problemas graves de manutenção originados por obstruções nos tubos de drenagem e rachaduras.
No relatório dessa empresa consta a advertência de risco de liquefação e o relato de infiltração de água em pelo menos uma seção, como se deduz do artigo do The New York Times. Já é hora de os engenheiros especializados em riscos, gestão de segurança de barragens e análise de estabilidade serem mais exigentes e menos subservientes com seus contratantes.
Afinal de contas a ruptura de barragens de rejeito tem agora o mesmo efeito de uma bomba-relógio montada sobre nossas cabeças.
Cornélio Zampier Teixeira
Enviado por Cornélio Zampier Teixeira em 22/02/2019
Alterado em 07/04/2019
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