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Cornélio Zampier Teixeira
Aquele que lê maus livros não leva vantagem sobre aquele que não lê livro nenhum (Mark Twain)
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CAMINHANDO À NASCENTE DO RIO
 
Esperava encontrar um sujeito definhado e de péssimo humor na portaria.

Mas, bastou que ouvisse o barulho do carro para ele erguer o corpo magro com um único movimento. Os poucos músculos das pernas se retesaram, esticou os braços para cima, flexionou discretamente o tronco e logo se colocou em forma para me atender. A brisa da serra era de dar inveja naquela tarde de setembro, embora a fumaça das queimadas já enfeasse a paisagem lá em baixo, turvando casas, colinas, rios e matas.

O funcionário do IBAMA, guardião de uma portaria quase simbólica à entrada do parque, ergueu-se da cama colocada fora do escritório; primeiro elogiou o tempo e depois me cumprimentou com a formalidade aguardada. Olhei para ele pensando: em quem se transforma uma pessoa que passa a maior parte de seus dias num lugar assim – num anjo do céu ou num ermitão? Será que suas jornadas de trabalho, meramente burocráticas, não o transformam em um tolo qualquer? Mesmo na ante-sala do paraíso não terá, de vez em quando, o necessariamente humano sentimento da angústia? Mas ele cortou meus pensamentos dizendo: “Estou aqui neste meio de serra já faz vinte e três anos. Dia sim, dia não, quando faço plantão, trato de um lobo guará tão solitário quanto eu. Tenho mais intimidade com ele do que com meus filhos.”

Enquanto ele falava, eu olhava ao redor como se fosse encontrar os olhos ariscos do animal me espreitando em alguma moita rala do cerrado. Como toda grande expectativa produz excesso de emoção eu via tudo com certo sentimento piegas de estar numa sala de audiência esperando ser recebido pelo Criador. Continuei pensando. Agora desviei a mente para o significado de liberdade até concluir que aquele homem, amarrado à teia da burocracia, não tinha o direito de ir e vir. Estava preso a um escritório campestre, só faltando a gravata. Eu, sim. Logo subiria o resto de serra que tinha a subir para o meu grande encontro. Há anos sonhava com ele.

Disse a ele o meu propósito esperando seu compartilhamento de minha alegria. Mas não produzi nele sequer o efeito passageiro do entusiasmo. Recitou, monocordiamente, um breve discurso entediado como se fosse uma monótona ladainha, repetida por vezes incontáveis. Como se fosse um guia turístico de poucos recursos. “Isto aqui é um santuário que merece respeito. Nada de acender fogo, jogar cigarro aceso no mato. Cuidado para não atropelar os animais. A trilha que você vai seguir é esta. Não tem placas, então tem de ficar atento para aquele pico lá adiante. O que você procura está naquela direção”.

Depois acendeu um cigarro – teve o esmero de espremer meticulosamente entre os dedos o palito de fósforo até se assegurar que ele estivesse apagado – e me estendeu uma ficha de identificação e uma caneta ordinária. “Preencha” – disse sem acrescentar por favor. Era uma pessoa estranha. Alternava rudeza e bons modos. E foi como cortesia última que resolveu me brindar com uma história, sabe-se lá quantas vezes repetida para outros turistas.

- Faz pouco tempo saíram daqui três padres e uma freira para seguir o rio desde a nascente até ele entrar no mar. Uns dizem que é para pagar promessa. Outros, que é para protestar porque o rio está poluído. O mais interessante é que eles passaram a pedir comida durante a viagem, mas nunca aceitavam carne. Uns dizem que é porque eles não queriam ofender a pobreza dos ribeirinhos, outros dizem que é ...

Quando ele viu meu desinteresse pela história enquanto eu preenchia a ficha interrompeu-a de modo brusco e esticou o corpo mais uma vez, olhando a paisagem lá em baixo como se estivesse ansioso para voltar pra casa. Contudo, era um homem cordial que parecia ter assimilado um bom treinamento.

Mas, agora, estava no seu papel de fiscal da natureza, de cumpridor do ofício. Pediu licença para revistar o carro, abriu o porta-malas e a tampa do motor, revirou tapetes, como se estivesse procurando alguma arma de caça escondida ali nos vãos escuros. Por fim tirou o estepe do compartimento e inspecionou a caixa das lâmpadas de ré. Quando pensei que fosse se dar por satisfeito ele me olhou de cima até em baixo e investigou meu olhar como se tentasse descobrir algum vestígio de desprezo pela natureza. E não se esqueceu, depois de tudo, de me dar mais meia dúzia de conselhos bem fundamentados em ecologia e meio ambiente. Só então, já completamente doutrinado para não fazer fogo, poluir a nascente e aprisionar animais, passei pela cancela da portaria do Parque depois de pagar uma pequena taxa de visita.

Agora sim. Saí em direção à nascente do rio, liguei todos os meus sentidos para não perder a possibilidade de avistar um tucano, um lobo guará, um tamanduá bandeira e até mesmo uma queimada, o que me daria a oportunidade de me transformar num herói, com direito àquela fama de quinze minutos que me fora prometida quando eu nasci. Mas, em vez disso fui encontrando só o que me fora reservado: as torres de uma linha de transmissão do sistema Furnas.

Lá em cima a tarde estava absoluta. A temperatura estava perfeita e o vento sibilava nos capins da serra e troncos de cerrado, dissipando o suor da pele. Subi e subi, cada vez mais ansioso para encontrar o rio. E nada! Comecei a pensar que não ia conseguir o que buscava, que eu ia acabar sendo punido por causa daquela modesta ambição e achei que ia ser muito frustrante ter me preparado tanto para aquilo e nada acontecer. “A gente não deve conhecer mais do que aquilo que merece conhecer”, foi o que pensei.

Se eu fosse um sujeito rico, teria encomendado um motor-home confortável e possante para estas andanças. Eu ia estacioná-lo lá em cima, onde toda a paz do mundo era possível, e ficar por ali o tempo que quisesse, o tempo que fosse necessário. Mas esta era apenas uma das vertentes do meu pensamento, que vagava em direção incerta, ora pensando nas conveniências de fazer a trilha a pé e me debruçar no capim para sentir o cheiro de mato, ora desejando um quadriciclo potente e barulhento para vencer o piso defeituoso do caminho. Em vez disto, passava sobre pedras e buracos com meu carro popular que, fazendo bem a sua parte, se comportava bravamente.

De repente, não mais que de repente, fui premiado. Alcançando já o planalto, tendo ao redor as plantas e o silêncio do alto da terra e um cenário de tirar o fôlego, o primeiro sinal, uma pequena ponte de madeira. Atravessei-a cautelosamente e olhei uma placa com uma indicação extraordinária. Tinha chegado. E o rio, recém-nascido, frágil e inocente como um bebê, me despertou para uma afeição imediata, sem qualquer possibilidade de defesa. Encostei o carro e saí para receber o abraço vigoroso do vento fresco, agora soprando com força. Estiquei o corpo e depois caminhei na direção que a placa apontava. Era uma trilha revestida com pequenas lajotas de quartzito, ao fim da qual uma nova placa anunciava o percurso vitorioso: NASCENTE DO RIO FRANCISCO. Mas devia ter uma inscrição de Cervantes: “el sosiego, el lugar apacible, la amenidad de los campos, la serenidad de los cielos, el murmurar de las fuentes, la quietud del espírito son grande parte para que las musas más estériles se muestren fecundas”.

Tudo o que a Natureza nos ensina tem conteúdo de verdade. Uma aguazinha preguiçosa e débil, escura, brotava em meio à turfa e saía no meio de capins. Coloquei um pé de um lado e o outro do outro, deixando o rio debaixo de mim. Aquelas águas que se modificariam a cada instante, nas quais ninguém poderia se banhar duas vezes, transmitiam a mensagem infalível de que é preciso aproveitar a vida. Mesmo que as águas passem, a beleza será sempre igual. E foi assim a minha conquista.

Não tive fôlego nem mesmo para apreciar a grande diversidade da flora, uma verdadeira explosão de sempre-vivas, bromélias e orquídeas. Mais tarde, em outra ocasião, teria de retornar ao topo da serra só para investigá-las.

Depois disto, nunca mais se é o mesmo. E a descida da serra não teria o mesmo enigma da subida. Tirei da mochila um naco de pão de centeio e, ao comê-lo, pensei, como Napoleão Imperador: é preciso muito pouca coisa para viver. Mas as sensações muito agradáveis não podem ser prolongadas por muito tempo, sob o risco da banalização – e então fui embora.
Cornélio Zampier Teixeira
Enviado por Cornélio Zampier Teixeira em 14/05/2019
Alterado em 14/05/2019
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