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Cornélio Zampier Teixeira
Aquele que lê maus livros não leva vantagem sobre aquele que não lê livro nenhum (Mark Twain)
Textos


VIDA DE ESCRITOR

Vida de escritor e maternidade são coisas similares ou homólogas em quase todos os sentidos. Não falo somente no tempo de gestão – tão curto quanto 21 dias para ratos ou tão longo quando 730 dias para elefantes – mas no sentido amplo de carregar a expectativa e as mudanças físicas; e aí já falo das mulheres. Como em qualquer experiência humana transcendente sua experiência não se transfere. Portanto, homens são incapazes de entender, na plenitude, a revolução corporal e psicológica que se processa nas mulheres ao longo daquelas 36-40 semanas carregadas de esperanças, alterações físicas e psicológicas (entre as quais a agonia e a insegurança); náuseas, sonolência, prisão de ventre, dor abdominal, inchaço, adaptação do corpo para abrigar o bebê em crescimento. O homem, mesmo fingindo que entende, não tem a dimensão exata dessa realidade.

Da mesma forma o homem comum também não entende as expectativas e sofrimentos de um escritor – e aqui falo de homem comum sem menosprezo, mas só como artifício de distinção entre duas espécies onde o uso do intelecto e da concentração mental é diferenciado. Sim, há escritores famosos, autores de clássicos imortais, para quem a gestação de uma obra imortal levou menos tempo que o da gravidez de uma ratazana. A Laranja Mecânica e Um Estudo em Vermelho consumiram apenas três semanas. Parece pouco? Pois O Médico e o Monstro não demorou mais do que míseros seis dias e, por incrível que pareça, O Menino de Pijama Listrado só consumiu dois dias e meio. Seus autores devem ter psicografados seus livros em sessões espíritas, só pode.

Mas são casos extremos. Mesmo os escritores profissionais, que dormem e acordam todos os dias pressionados por condições contratuais para entregar seus originais aos editores em tempo muito curto não finalizam obras em menos de três meses. Há muitos casos assim: Eclipse – Cassino Royale – Enquanto Agonizo – Um Conto de Natal, etc. Normal mesmo é entre 6 meses (quase um bebê prematuro, como é o caso de O Pequeno Príncipe) ou até 9 meses (casos de O Morro dos Ventos Uivantes e Grande Esperança).

A partir daí são verdadeiros partos de baleias e elefantes, embora mesmo esses mamíferos não consigam superar os tempos de criação de livros que demoraram uma eternidade para serem finalizados. O recorde da Trilogia de O Senhor dos Anéis, 192 meses, dificilmente será batido, mas não estão longe dele Os Miseráveis, E o Vento Levou e O Apanhador no Campo de Centeio, todos com 120 meses ou mais.

Então, como regra, tem-se que bons romances podem ser produzidos entre 3 e 18 meses. E o escritor, seja homem ou mulher, passa pelos mesmos sintomas já descritos durante a gravidez feminina. Suores noturnos, irritabilidade, insegurança, mudança de personalidade (alguns assumem duplos para justificar seus destemperos e desequilíbrios), desleixo com a aparência, impotência, decadência financeira, inadimplência – chega-se ao fundo do poço com o corte de luz.

E tudo isso para que? Para que o bebê nasça forte e saudável. Muitas vezes o autor se projeta tanto em seu livro que este se transforma, literalmente, em um filho. Assola-o, frequentemente, uma persistente crise de ciúme. Por vezes, exibe os originais, impressos economicamente em formato de rascunho, como se fossem obras-primas imortais. Ficam possessivos: você é meu, de mais ninguém. Mas, passada a crise, ele se comporta como uma mãe generosa, que ama incondicionalmente suas crias.

Amor incondicional! Pois é isso mesmo. Amor de mãe, que tudo perdoa, como se fosse um cão que após o castigo físico ou a desmoralização de ser repreendido ao colocar as patas na camisa branca do dono, se volta alegremente assim que ouve um breve estalar de dedos. Amor que justifica todas as falhas dos rebentos, ainda que eles já tenham rebentado há quarenta anos.

Mas há uma sutil diferença. Pouquíssimas mães suportam o sofrimento de filhos desgarrados. Por elas, o cordão umbilical jamais seria cortado, eles nunca poderiam sair de seus úteros. Aquele bebê que cresceu não deveria ir pelo mundo afora e, caso o faça, teria de telefonar todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Genros e noras sofrem; a pressão é imensa para que correspondam exatamente às suas exigências: filhos devem ser tratados como se fosse pelos próprios pais. Como se ainda tivessem os olhos sensíveis à luz, como se fosse preciso escutar as batidas do coração a todo instante. Está magro ou espinhento, os cabelos estão grandes demais e a pele muito ressecada, as unhas cresceram ou estão sujas; uma vigilância que nunca cessa. Pobre bebezinho! O mundo é cruel e não merece tê-lo. Tudo ao contrário do escritor!

O escritor, lançada sua obra ao mundo, só se preocupa que ela seja de todos. Quer ser lido por bons e maus leitores, quer ser discutido, debatido, elogiado (raramente criticado), propalado. Quer alcançar pessoas estranhas, com as quais jamais estabelecerá contato, embora deseje ardentemente conhecer cada uma; sentar com elas, conversar, desde que o assunto seja seu próprio livro. Parece a história do náufrago que manda uma mensagem engarrafada esperando que alguém a destampe numa praia remota e leia seu desespero.

O escritor é um eterno iludido. Acha que a fama virá no próximo livro. Hoje em dia há cursos de criação literária – para alguns todo escritor deveria começar sua carreira depois de ter feito algum – onde aprende a construir personagens e cenários, estruturar capítulos e recursos narrativos antes de escrever seus romances, contos e prosas poéticas. Deveria fazer, sim, mas também deveria se libertar logo em seguida das amarras estruturantes de um processo engessado, pois lá ele vai ter de analisar como fizeram Willian Faulkner ou Clarice Lispector para depois tentar imitá-los. Se a vida é uma colheita e colhe mais quem é mais diligente, escreve melhor quem recolhe mais durante a vida lendo sempre bons autores. Mas isso é um processo meio osmótico; suas veias acabam inchadas de tanto receber o sangue alheio, que se mistura ao seu. Este é o caldo que poderá torná-lo um bom escritor, que lhe dá o treinamento para jogar dez mil palavras para o alto e elas caírem exatamente na melhor ordem possível (como disse Truman Capote).

Escrever é entrar em estado de imersão. Sofrimento delicioso, uma contradição. Tudo movido a paixão e disciplina, a renúncias e submissões. Em algum momento as coisas irão fazer sentido. Sai o seu livro. Você se enamora da capa, do ISBN que é só seu, das orelhas. Lê o texto, pela enésima vez, como se não fosse seu. Descobre erros que a mais exaustiva revisão não captou. Treme só de pensar que será julgado relapso pelos que o lerem. Fica inseguro, mais uma vez. Qual será o destino deste meu filho? Cada livro é um filho, mas nenhum de seus filhos parece ter irmãos.

Mas, duro mesmo é escrever e publicar os primeiros livros. Pirandello deveria ter escrito “Seis autores à procura de um Editor”. Aliás, poderia ser até mesmo de um agente literário. Todas as portas estão fechadas. Um editor me disse certa vez que só estava interessado em autores mortos. De preferência, sem herdeiros. Pirandello também deveria ter escrito “Seis autores à procura de um leitor”. Pois às vezes os autores são obrigados a oferecer seus livros, como naqueles cenários desagradáveis de decadentes bares noturnos onde poetas malditos espalham poemas impressos em um miserável papel-jornal esperando o pagamento de um café. É o preço que a vida cobra do escritor em busca da fama e do reconhecimento.

Agora, duro mesmo é quando o autor envia uma mensagem a alguém anunciando seu novo filho e a pessoa responde com fingida admiração: “Parabéns, desejo muito sucesso”. Enquanto isso a expressão mais sonora que um escritor que se lança gostaria de ouvir é: “Já comprei e vou ler”. Mesmo quando a informação é falsa.
 
 
 
Cornélio Zampier Teixeira
Enviado por Cornélio Zampier Teixeira em 19/06/2019
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