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Cornélio Zampier Teixeira
Aquele que lê maus livros não leva vantagem sobre aquele que não lê livro nenhum (Mark Twain)
Textos


O RECREADOR MINEIRO
Em 2002, quando escrevia uma coluna mensal de que muito me orgulhava (“Disso e Daquilo) O Tocantins fechou o ciclo de suas edições. Agradecido por ter sido seu colaborador por muito tempo, publiquei ali minha última crônica com o título de “Até mais ver”, que começava assim:

O TOCANTINS acaba de passar por mais um ciclo, assim como os anéis de uma árvore, as camadas de um sedimento, as estações do ano. Nenhuma tragédia, nenhum muro de lamentações. Com o passar dos anos, a gente aprende, por meio de filosofias consoladoras, a se proteger contra o que desagradável. Como se morrer fosse uma premissa para um renascer melhor. Como se ter sido não fosse melhor do que nunca ter sido [...] É de se entender que um bravo grupo de guerreiros idealistas jogue temporariamente a toalha por causa da “superveniência de dificuldades incontornáveis”, porque foram eles mesmos que, num dia não tão distante assim, resolveram ressuscitar este patrimônio da cidade [...]

O TOCANTINS era um jornal provinciano, assim como foram todos os jornais do interior do Brasil no período do Império e das Regências, mesmo que tenha se passado mais de 1,5 séculos; ninguém era remunerado, o próprio diretor tirava dinheiro do bolso para custear a edição daquele delicioso pasquim impresso. Ainda não havia imprensa online. E é essa lembrança me remete à heróica imprensa mineira do século XIX, nascida na então capital da Província e já com a incompreensível mudança toponímica do idílico Villa Rica para o pouco sonoro Ouro Preto. Quase uma centena de periódicos varreu este período, mas quero aqui mencionar O Recreador Mineiro por suas magníficas singularidades. Ele circulou de 1845 a 1848 de modo ininterrupto, com edições quinzenais e em fascículos de 16 páginas, impresso em tamanho 14 x 20 cm, eventualmente com estampas litografadas.

E por que distingui-lo em meio a tantos jornais ouropretanos? Por um único fato: foi o primeiro, talvez o único, daquele período preocupado em formar leitores – coisa que ninguém repetiu depois dele com tamanha convicção. Um leitor não se forma somente através de jornais ou revistas literárias, talvez nem mesmo pelo convencimento de professores nas escolas de ensino fundamentais ou pelas visitas obrigatórias às bibliotecas públicas. Quem sabe isso não seja um dom premonitório – e dizendo isso penso em um grande amigo goiano residente em Catalão. Contudo, não há como negar que a presença de livros em nossas casas facilita as coisas, pois nem sempre o amor aos livros brota espontaneamente.

E é por isso que me alegro ao enaltecer esta página morta da História chamada de O Recreador Mineiro. Talvez por vocação seu proprietário tenha escolhido a impressão de um jornal como meio de vida, mas fica claro que ele poderia ter abraçado um ramo menos cansativo e de maior rendimento. A realidade da imprensa pequena daqueles dias implicava dizer que o proprietário fazia funcionar o jornal com pouquíssimos ajudantes e era ele quem os treinava. Em muitos casos ele era redator, tradutor, revisionista, compositor, impressor e vendedor. A sobrevivência do periódico dependia dos assinantes mais do que de anunciantes. E arriscar na produção de um jornal literário de dezesseis páginas, numa época em que todos os periódicos circulavam com quatro páginas e cujo conteúdo reservava 75% de seu espaço para a política, era coisa muito ousada.

O Recreador Mineiro tinha inspiração neoclássica e o propósito de “debater e ilustrar a sociedade recém-descolonizada”, nas palavras de Maria Francelina Silami e Ibrahim Drummond no dossiê “Primeiras luzes nas letras” publicado na Revista do Arquivo Público Mineiro, edição nº 1 de 2008. Ora, o Iluminismo estava impregnado na Corte Portuguesa que chegou ao Brasil em 1808 e um de seus conceitos prediletos é que a educação não se logra só da escola, cabendo à Literatura o papel de propagar intenções moralizadoras e civilizatórias e à Imprensa o instrumento de ação educadora, e que tais fundamentos deveriam ser desencadeados pelas elites portadoras de valores de civilidade. E O Recreador Mineiro encarnava perfeitamente esses valores quando discutia a modernidade do romance e divulgava a típica poesia brasileira, ou traduzia obras literárias para formação de público leitor. Em encartes semestrais o periódico ainda apresentava seções de História, Filosofia e Poesia, através de tópicos tão avançados quanto diversos, que podiam variar da geografia física à botânica marítima, da topografia à mineralogia, da memória histórica aos folhetins e economia doméstica. O editor pensava sempre em três tipos de leitores: a pouco numerosa classe dos que buscavam somente a cultura ou a instrução, a classe (então) dominante dos que procuravam se instruir e divertir e a classe dos que só queriam passatempo. E no meio disso os raros anúncios: medicamentos, utilidades domésticas, teatro e circo. Foi este O Recreador Mineiro que levou o naturalista inglês Richard Burton a escrever, anos mais tarde, que as pessoas em Minas liam com prazer.

Mas quem estaria por trás desse ideário chamado O Recreador Mineiro? Seu proprietário era Bernardo Xavier Pinto de Souza, um português naturalizado que chegara ao Brasil em 1835 acompanhando o conselheiro Joaquim Antônio de Magalhães, este com duas passagens como ministro da Justiça em Portugal e que viera ao Brasil na condição de ministro plenipotenciário de Portugal junto à corte. Pode ser que esse relacionamento o tenha levado a Ouro Preto como primeiro oficial da Secretaria de Governo da Província de Minas Gerais e gerente dos Correios. Ali se casou com a filha de um homem também influente, Manuel Alves de Toledo Ribas; poderia continuar no abrigo generoso do governo como funcionário público, mas exonerou-se para tentar a sorte como impressor (fundou a Typographia Imparcial em 1944 para imprimir O Recreador Mineiro, além de outros) e dono de jornal.

Tomou como missão publicar boas obras: o poema Vila Rica de Cláudio Manoel da Costa e o poema Caramuru de Santa Rita Durão; tradução das memórias de viagem de Saint-Hilaire, ainda inéditas em português, os textos de Escheweg, Spix e Martius e ainda a divulgação de uma longa paródia das Cartas Chilenas atribuídas a Tomás Antônio Gonzaga. Só por isso este homem deveria ser um erudito. Tornou-se (provavelmente) o único dono de jornal que não tivesse o lucro como seu principal escopo, comprovando-se que, em muitas ocasiões, prevaleceu sua posição de intelectual em vez de impressor. Não fosse assim não teria se arriscado na criação de um periódico completamente diferenciado dos padrões da época – quase um pequeno livro, ilustrado e educativo (sem deixar de ser popular) cujo objetivo principal era o de formar leitores de livros. Foi ele quem implantou na imprensa mineira a aceitação da crônica literária, da poesia, do folhetim romântico e da memória histórica adaptada ao formato de jornal literário ao qual foi fiel desde o início, a ponto de criar outro periódico, distribuído sem custo aos assinantes, para publicar correspondências, comunicados e anúncios.

A sobrevivência de quatro anos de O Recreador Mineiro, numa época em que a maioria dos jornais não durava mais de um ano, se deve não só à qualidade e variedade de suas matérias, mas também à formação de um público leitor com gosto pela literatura. Quando fechou o jornal/revista em 1848, Bernardo Xavier Pinto de Souza escreveu que “uma parte dos leitores lê na letra do escritor; a outra parte lê no seu espírito”. Ignora-se se o encerramento ocorreu por insucesso financeiro ou cansaço, já que muitas vezes cabiam a ele múltiplos ofícios dentro da empresa. Fato é que, mal saído de sua exaustiva carreira de editor/impressor de uma revista literária voltou novamente a abraçar os livros, agora como proprietário de uma livraria, aberta em 1851. Ela ficava na rua São José em loja frontal à Casa dos Contos, construção que ainda existe. Burmeister, naturalista alemão que percorria Minas Gerais na ocasião, visitou sua loja e destacou que “o estoque é, em sua maioria, integrado por trabalhos de edição própria”. E então descreveu brevemente a variedade: gramática portuguesa, novelas, enciclopédia, livros escolares para cursos ginasiais.

A dedicação fervorosa de Bernardo Pinto de Souza aos livros era notável, tanto é que em 1846 viera a se tornar guardião da biblioteca pública de Ouro. Onde? Em sua própria residência. Mas, pouco tempo depois de aberta, a livraria seria encerrada em 1853 com sua mudança para o Rio de Janeiro, lugar em que continuaria a atuar na imprensa. Esta etapa de sua vida não interessa aqui, mas pode-se imaginar que ele tenha continuado a luta contra a forma de fazer jornais divulgando fuga de escravos e trocas e vendas de bens ou anunciando medicamentos e variedades. No Rio voltou ao serviço público no cargo de oficial da administração central da Estrada de Ferro Pedro II, foi dono de uma empresa de loterias, abriu nova tipografia para impressão de livros; editou obras da mineira Beatriz Francisca de Assis Brandão, prima de Marília de Dirceu e escreveu dois volumes de memórias de viagens dos príncipes monarcas. Sua proximidade com Burmeister, Richard Burton e Bernardo Guimarães prova que Bernardo Pinto de Souza foi um semeador de livros, principalmente através de O Recreador Mineiro, “o mais importante alimento literário de toda Minas” nos dizeres de Burton. E também guardião de livros: conta-se que alguém encontrou muitas obras interessantes atiradas na capela do Palácio do Governo; para que não se perdessem foram transferidas para a sua responsabilidade de guardá-las e conservá-las.

Nota fúnebre: Bernardo Xavier Pinto de Souza não é nome de rua, nem em Ouro Preto, nem no Rio de Janeiro.
Cornélio Zampier Teixeira
Enviado por Cornélio Zampier Teixeira em 07/07/2019
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